ESPAÇO CULTURAL GIBRAN KALIL GIBRAN
“É com muita honra que me dirijo ao povo brasileiro amigo, em nome da Embaixada do Líbano em Brasília, para anunciar a inauguração do “Espaço Cultural Gibran Khalil Gibran” nesta casa, que será destinado a atividades culturais, intelectuais e artísticas sob todas suas formas e tipos, imprimindo ao trabalho da Embaixada uma nova dimensão que se estende até as fronteiras da cultura e do pensamento, em sintonia com o papel civilizador do Líbano ao longo dos séculos.
O Líbano é pequeno em sua superfície e grande em sua história e em suas esperanças. A sua história se enraizou através do tempo, formada por várias eras e civilizações que se sucederam e lá deixaram profundos vestígios em testemunho da nobreza deste pequeno país e sua civilização, desde a invenção da primeira escrita alfabética pelos fenícios, no final do segundo milênio a.C., os quais, saindo dos portos de Byblos, Sidon e Tiro, a levaram a outras partes do mundo, contribuindo para o desenvolvimento intelectual e científico, e determinando uma nova capacidade da humanidade na preservação de seu patrimônio.
É dever de todo libanês, onde quer que esteja neste mundo, atender ao chamado para o qual o Líbano existe: o de que o Líbano não pode ser visto apenas pela sua superfície geográfica, mas pela sua extensão humanitária, civilizadora e espiritual; o de que o Líbano, pelo que representa de valores humanos, de convivência entre suas famílias espirituais, torna-se o modelo do encontro e do diálogo entre civilizações e religiões, do qual o mundo precisa hoje. É de se destacar que o Líbano escolheu um tema de reflexão este ano, qual seja, o “diálogo entre as culturas”.

Éfigie de Gibran na entrada do Espaço Cultural
POR QUE GIBRAN KALIL GIBRAN?
A vida de Gibran e toda sua produção artística e intelectual resultaram em uma construção filosófica integrada que consideramos o símbolo maior para o qual o Espaço Cultural almeja.
Desde o seu nascimento, em 06 de janeiro de 1883, na cidade de Becharré, norte do Líbano, bem próximo da sagrada floresta dos cedros milenares, até sua morte em Nova York em 1931, Gibran traçou a trajetória universal do ser humano por intermédio de seus quadros, sua literatura e sua poesia, com uma visão tão aguda que nos parece estar penetrando no coração do destino para desenhá-lo na nossa frente com linhas e letras.
Gibran emigrou com sua família para Boston em 1895 e, desde seu ingresso em instituições de ensino, logo seu dom de pintor se revelou e foi contratado por editoras para ilustrar seus livros; seus desenhos eram imbuídos da alma oriental inspirada na natureza libanesa.
Gibran voltou ao Líbano, onde passou três anos estudando e aprofundando-se no entendimento do idioma árabe para em seguida regressar a Boston, dedicar-se à pintura e efetuar a sua primeira exposição em 1904.
Durante sua estada em Paris, entre 1908 e 1910, Gibran mergulhou no descobrimento de sua alma, a fez florescer, deixando-a transparecer nos seus escritos de forma revolucionária, nascida nos momentos particulares daquela época, do estado de contradições que reinava entre as ambições dos povos e as algemas que os amarravam.
Foi no período que passou em Nova York, entre 1911 e 1931, que a filosofia de Gibran tomou seus contornos, revelada em sua literatura, suas obras artísticas e suas opiniões e posições a respeito das escolas de arte moderna, seu papel na preservação da literatura árabe e seu desenvolvimento nos países de imigração, criando um grupo de escritores chamado de “Liga Literária”, tendo alcançado, no período, grande renome, raramente visto. Diante reconhecimento e da fama vindos de todo o mundo, uma estranha doença o acamou, devorando seu corpo aos poucos e apagando a última chama de sua vida na noite de 10 de abril de 1931.
O enorme patrimônio deixado por Gibran é composto por dezenas de livros, sendo “O Profeta” o mais célebre deles, traduzido por quase todos os idiomas do mundo; tendo a sua completa obra literária sido traduzida em português pelo Professor Mansour Challita, enquanto que o patrimônio artístico conta com mais de quinhentas obras de arte.
Atendendo ao seu testamento, os restos mortais de Gibran foram transportados e sepultados em sua terra natal, Becharré, onde lhe foi consagrado um museu no Convento São Sarkis, seu lugar de recolhimento e de contemplação, tornando-se o santuário das gerações, suas palavras e sua arte, um eterno farol iluminando através do tempo.
Gibran nasceu nos arredores da Floresta dos Cedros, carregou o seu Líbano no coração e partiu para percorrer uma longa viagem, lembrando-se permanentemente de sua terra, repetindo sua insígnia: “vocês têm o seu Líbano e eu tenho o meu”.
Gibran, libanês de nascimento, de origem e de alma, saciou-se do pensamento universal, tornando-se, com sua criação artística, sua produção literária e seus ensinamentos, referência para toda a humanidade e testemunho da terra libanesa e do homem do Líbano através dos séculos.”
Embaixador Ishaya El-Khoury
Brasília, 21 de novembro de 2001.
Discurso por ocasião da inauguração do Espaço Cultural Gibran Khalil Gibran.
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