 |
LITERATURA
Gibran Khalil Gibran (1883 – 1931)
Gibran Khalil Gibran, poeta, pintor e filósofo libanês, nasceu na cidade de Becharré, ao norte do Líbano, próximo a Floresta dos Cedros milenares.
Emigrou para Nova York em 1895 e, em companhia de sua mãe, seu irmão e suas duas irmãs e lá faleceu no dia 10 de abril de 1931.
Gibran, cuja obra é abundante e também traduzida para o português, tornou-se conhecido pelo seu célebre livro “O Profeta”, escrito em inglês e traduzido em 40 idiomas.
|
|

O escritor Gibran Khalil Gibran
|
|
O livro “O Profeta” reflete o pensamento do autor sobre diversos aspectos da vida humana, como ... assim como outros assuntos que podem ser resumidos pelo poder curador do amor universal e da unidade do ser.
Para bem compreender a obra de Gibran, é preciso conhecer o universo no qual nasceu e viveu o escritor. Vamos fazer um passeio virtual por este ambiente que nos remete a um Líbano místico e nostálgico.
A Floresta dos Cedros: cenário de contemplação
Gibran nasceu na pequena cidade de Becharre, situada a 1500 metros de altitude, à margem da Floresta de Cedros e pendendo para o insondável Vale Santo ou Vale de Kadicha. O vale, considerado Patrimônio Universal pela Unesco, é rasgado por uma larga fenda de mil metros de profundidade por onde corre o Rio Kadicha, o “rio santo”. Um exemplo vivo dos primórdios da fé cristã, Kadisha vem resguardando comunidades monásticas desde os primeiros anos do cristianismo.
Percorrendo o vale, deparamo-nos com a Floresta dos Cedros ou a floresta de Becharre, chamada também “Arz al Rabb” (“os cedros do Senhor”). Diz-se que essa paisagem é favorável ao recolhimento, à solidão, à piedade e à contemplação de Deus, pela beleza de sua natureza.
O cedro, que habita as paragens do vale, foi citado cerca de setenta e cinco vezes na Bíblia, sendo considerado o símbolo dos justos, como podemos ler no Salmo 43: “O justo crescerá como uma palmeira e elevar-se-á como o cedro do Líbano”. A antiqüíssima árvore é também o símbolo da incorruptibilidade e da imortalidade. No Épico de Gilgamesh, um dos mais antigos trabalhos literários do mundo, o mítico rei-herói Gilgamesh não queria morrer e precisou sair da Babilônia rumo ao Líbano para procurar o segredo da alma. Chegando na Floresta dos Cedros, ele esperou em vão receber a planta da imortalidade.
Todo esse universo ocupa um espaço fundamental na obra de Gibran, influenciando sua escrita e sua pintura. Pois, muito embora, sua arte não represente realisticamente a paisagem do norte do Líbano, as formas humanas desenhadas por Gibran concebem exatamente essa natureza que ele tanto amou. “Se eu desenho uma montanha com um amontoado de formas humanas ou se pinto uma cascata sob a forma de corpos nus caindo, é porque vejo na montanha um montão de coisas vivas e numa cascata uma corrente de vida que cai”.
Vale silencioso, solidão oriental, cedros milenares, rios cobertos de espuma: este é o cenário onde Gibran passou sua juventude. São estas as palavras que formam o léxico básico de sua obra.
Becharré: Sol e Espiritualidade
Becharré é a primeira cidade de toda a montanha libanesa a ser iluminada pelo sol do alvorecer. É a cidade mais elevada e mais ao leste entre todas as cidades libanesas. Becharré e seu cenário natural constituem uma escola de misticismo cujos mestres são os eremitas e cujo ensinamento é o silêncio.
De todos os lados jorram fontes de água chamadas “Ouyoun El Ard” (os olhos da terra). É possível observar, diante das fontes, as jovens carregando suas jarras contendo a água filtrada pelas raízes dos cedros. Esses dois componentes da natureza de Becharré, a montanha e o vale, se encontram na arte e na literatura de Gibran. Para Gibran, a montanha tem uma dimensão vertical, coincidindo com seu papel de profeta, e o vale uma dimensão interna que corresponde a seu feitio materno e dogmático.
Na cidade natal de Gibran, erguem-se sete igrejas e três conventos, assim como vestígios de um templo fenício. O padre Henri Lammens, eminente orientalista belga, sugere como etimologia para Becharré “Bayt Achéra” (casa de Ishtar, ou Ashtarté). Ashtarté era uma divindade feminina da antiguidade, esposa de “El”, o pai dos deuses. Ela também é considerada a mãe dos deuses, chamada de Maryam (Maria) que significa, em línguas semíticas , “senhora do mar” (Mar yam).
Em uma de suas obras, Gibran escreveu: “Osíris não desapareceu senão com a vinda de Jesus e Mithra (herói vivo dos persas) e com a vinda de Maomé; assim, a humanidade muda o nome de seus heróis, mas não muda sua fé neles.” Toda obra e todo pensamento de Gibran estão impregnados desta espiritualidade.
A vida do poeta
Gibran nasceu no dia 06 de janeiro de 1883 e morreu em 10 de abril de 1931. Ainda pequeno, era fascinado pelas tempestades. “Cada vez que havia uma tempestade, eu saia e corria para me entregar a mercê do vento. Existia alguma coisa em mim que se soltava e se liberava gloriosamente diante de uma tempestade.”
Sua mãe descobriu no filho um artista em potencial e foi uma das principais responsáveis pela iniciação de Gibran na música e na poesia. Durante horas o pequeno Gibran ficava quietinho enquanto sua mãe lhe contava histórias das mil e uma noites ou lhe recitava poemas. As primeiras imagens de Gibran foram modeladas na neve; ele construía figuras de uma beleza estranha, desenhava e pintava com misterioso ímpeto, mas destruía sempre seus desenhos, dizendo: “Eles não eram jamais como aquilo que eu via com os olhos fechados.” Gibran permaneceu toda sua vida em busca da perfeição.
O Líbano estava então sob ocupação Otomana que, entre 1860 e 1880, estimulou várias famílias a emigrarem em direção ao novo mundo. Esse foi o destino da família de Gibran, que ao completar doze anos, vai embora de sua terra natal. Mais tarde, se lembrando do momento da partida, ele escreveu: “Minha casa diz: Não me deixe, teu passado está aqui, e a rua me diz: vem segue-me, eu sou o teu futuro. Então eu lhes disse: Eu não tenho nem passado, nem futuro, na sua casa do passado, eu aspiro por um futuro e no seu caminho em direção ao futuro, eu carrego com ele o passado. Somente o amor e a morte podem mudar tudo”.
O segundo período de sua vida se passa na América, em Boston, onde ele freqüentou a escola pública do bairro e a célebre biblioteca, que o iniciou nas grandes obras literárias. A princípio, Gibran chamava a atenção por seus desenhos e foi contratado por uma mecenas americana. Foi assim que ele foi descobrindo os grandes pensadores, filósofos e escritores ingleses. O duplo dom literário e artístico de Gibran constituiu as duas trilhas de sua vocação.
Aos quinze anos, em 1898, a família decidiu enviar Gibran ao Líbano para um melhor conhecimento de seu povo e de sua língua materna. Gibran estudou então o árabe e o francês, e descobriu a produção literária destas duas línguas. Ele ficou quatro anos no Líbano e, antes de retornar à América, viajou ao Egito, Síria e Palestina.
De volta aos Estados Unidos em 1902, num espaço de quinze meses, Gibran perdeu sua mãe (com quarenta e cinco anos), seu irmão primogênito e sua irmã caçula (com quatorze anos), mergulhando numa dor inconsolável.
Em 1904, ele conheceu Mary Haskell, diretora de escola que se tornou sua protetora e lhe ofereceu uma bolsa de estudos artísticos em Paris, entre 1908 e 1910. Ele se inscreveu na Academia Julien e no Instituto de Belas Artes. Em uma de suas cartas a Mary Haskell, Gibran escreveu: “Os professores da Academia me dizem sempre: ‘Não torne o modelo mais belo do que ele é, e minha alma não cessa de suspirar. ’ Ah! se você pudesse apenas pintar o modelo tão belo quanto ele é realmente... Que devo fazer, será preciso agradar os professores ou então a minha alma? É verdade que estes respeitáveis e velhos professores possuem um imenso saber, mas a alma está bem mais próxima da verdade.”
Gibran passou dois anos em Paris, onde pôde se encontrar com Debussy, Maeterlink, Rostand, Pierre Loti e Auguste Rodin. O estilo de sua pintura e sua simplicidade instintiva tornaram a pintura semelhante à arte da escultura. Em toda a singular obra de Gibran, o corpo nu é a sua própria vestimenta, o véu que dá forma à alma. Com isso, pode-se dizer que sua arte é uma tentativa de pintar o espírito.
De volta à América, Gibran mergulha na leitura de obras, em árabe e em inglês, buscando o equilíbrio entre a influência de Blake, de Nietzche e a dos poetas místicos muçulmanos, como Ibn Al Arabi e Ibn Al Farid. Entretanto, a influência mais importante foi, sem dúvida, a Bíblia, obra que não pertence nem ao Oriente nem ao Ocidente.
A herança libanesa da infância e a cultura americana da adolescência vão se aliar a uma nova influência latina e humanista. Ele descreveria mais tarde: “A terra é minha pátria e a humanidade, minha família. Eu te amo, meu irmão, qualquer que sejas, eu te amo em oração dentro de tua mesquita, em devoção dentro de tua igreja, ou em veneração dentro de teu templo, porque tu e eu somos filhos de uma mesma religião: o Espírito. E os diversos caminhos religiosos representam os vários dedos de uma única mão amante do ser supremo. E essa mão se volta para nós com ardor para nos guiar em direção à plenitude da alma”.
Os primeiros livros de Gibran (Asas Partidas, As Ninfas do Vale, As Almas Rebeldes, Temporais), lançados entre 1905 e 1920, foram escritos revolucionários, com os quais Gibran esperava abalar tradições e instituições, denunciar a vilania e a estupidez, desmantelar o trono dos gananciosos, humilhar o clero que prega o que não pratica, edificando um novo estilo de vida.
Após esses livros, o Gibran revolucionário transformou-se no Gibran filósofo, mais preocupado com a alma humana do que com as instituições sociais, convencido de que os piores inimigos do homem estão dentro de si mesmo e não fora , e que a compreensão e a compaixão são melhores instrumentos do que a condenação e a destruição. Viriam, então, os livros de mais ampla visão como O Profeta, Jesus – O Filho do Homem, Areia e Espuma, dentre outros.
Em sua maturidade, os livros de Gibran são um hino ao amor, para ele, o único caminho da salvação num mundo onde todos os valores são ilusórios e onde a repetição dos dias e das noites e do que há nos dias e nas noites dá à vida uma monotonia insuportável.
“É melhor para nós e mais sábio,
Procurar um recanto à sombra
E dormir em nossa divindade terrestre
E deixar o amor, humano e frágil,
Comandar o dia que chega”.
(Deuses da Terra)
Gibran criou uma associação literária e política para reunir as forças dos emigrantes sírios-libaneses nos Estados Unidos, a fim de emancipar os países do Oriente-Médio submetidos ao jugo otomano. Ele criou ainda um grupo de escritores sírios–libaneses em 1920, a “Liga da Pluma”, que contribuiu para o renascimento da literatura árabe.
Ao falar das características de cada povo, ele disse: “A maior ambição de um Russo é ser um santo, a de um Alemão é ser um conquistador, a de um francês é ser um grande poeta, a maior ambição do povo do oriente é ser um profeta”.
Em sua celébre obra O Profeta o personagem principal recebe o nome de Al-Mustapha, que significa “o bem amado e o eleito”, ora, “o bem amado” (que é também uma tradução da palavra Khalil) é um atributo dado a Abraão e, em seguida, a Jesus, enquanto “o eleito” é um atributo de Maomé. O profeta de Gibran seria, então, o filho de todos os profetas do Oriente que o precederam?
Gibran tinha uma saúde muito frágil, mas trabalhava com afinco, desenhando durante o dia e escrevendo à noite. Seu coração fraquejou quando ele atingiu os 48 anos. Seu corpo foi transportado para o Líbano e enterrado num local escolhido anteriormente por ele: um antigo convento, situado ao pé da floresta dos cedros, pendendo para o vale santo, sua morada por toda a eternidade. Ali se encontra o Museu de Gibran, que reúne sua obra literária e artística.
Gibran influenciou de modo extraordinário a vida de milhões de pessoas, fazendo chegar ao mundo uma mensagem de reconciliação, de tolerância e de paz, de fraternidade, de perdão e auxílio mútuo.
Cronologia
1883 – Nascimento de Gibran Khalil Gibran em Becharré (Norte do Líbano). Faz seus primeiros estudos em árabe e siríaco em Becharré até 1894.
1895 – Emigração da família de Gibran para os Estados Unidos (Boston). Gibran faz seus estudos em inglês.
1898 – Gibran volta para estudar em árabe; matricula-se no Colégio da Sabedoria, em Beirute.
1902 – Fixa-se definitivamente nos Estados Unidos. Gibran escreve 8 livros, todos em árabe: A Música (1905), As Ninfas do Vale (1905), As Almas Rebeldes (1908), Asas Partidas (1912), Uma Lágrima e Um Sorriso (1914), As Procissões (1919), Temporais (1920) e Curiosidades e Belezas (1923).
1920 – Fase filosófica na obra de Gibran, produz 8 livros, todos em inglês: O Louco (1918), O Precursor (1920), O Profeta (1923), Areia e Espuma (1926), Jesus – O Filho do Homem (1928), Os Deuses da Terra (1931), sendo duas publicações póstumas: O Errante (1932), O Jardim do Profeta (1933).
1931 – Gibran falece em Nova York. Segundo sua vontade, suas cinzas são enterradas no Líbano, perto dos cedros, no mesmo lugar onde se encontra hoje o Museu de Gibran Khalil Gibran.
Pensamentos
Extraídos do livro “Areia e Espuma”:
• “O desejo é a metade da vida, a indiferença é a metade da morte”.
• “Não podemos atingir a aurora sem passar pela noite”.
• “A generosidade não está em dar-me aquilo que eu preciso mais que você, mas em dar-me aquilo de que precisas mais do que eu”.
Extraídos do livro “O Profeta”:
• “Quando um de nós ama, que não diga: ‘Deus está em meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus’”.
• “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não são de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem”.
• “Vós pouco dais quando dais de vossas posses; é quando dais de vós próprios que realmente dais”.
• “O trabalho é a imagem completa do mais perfeito amor”.
• “ – O que é trabalhar com amor?
É tecer o tecido com fios desfiados de vosso próprio coração, como se vosso bem-amado fosse usar esse tecido;
É construir uma casa com afeição, como se vosso bem-amado fosse habitar essa casa;
É semear sementes com ternura e recolher a colheita com alegria, como se vosso bem-amado fosse colher os frutos;
É por em todas as coisas que fazeis um sopro de vossa alma;
É saber que todos os abençoados mortos nos rodeiam e nos observam.”
• “Sereis, na verdade, livres, não quando vossos dias estiverem sem preocupação e vossas noites sem necessidades e sem aflição, mas antes, quando essas coisas sobrecarregarem vossa vida e, entretanto, conseguirdes elevar-vos acima delas, desnudos e desatados.”
• “Se quiserdes conhecer a Deus, não procureis transformar-vos em decifradores de enigmas. Olhai, antes, à vossa volta e encontrá-lo-eis a brincar com vossos filhos. E erguei os olhos para o espaço e vê-lo-eis caminhando nas nuvens, estendendo os braços no relâmpago e descendo na chuva. E o vereis sorrindo nas flores e agitando as mãos nas árvores.”
• Que é morrer se não expor-se, desnudo, aos ventos e dissolver-se no sol? E que é cessar de respirar, senão libertar o hálito de suas marés agitadas, a fim de que se levante e se expanda e procure a Deus livremente?”
• “Mais um curto instante, e minha nostalgia começará a recolher argila e espuma para um novo corpo. Mais um curto instante, mais um descanso rápido sobre o vento, e outra mulher me conceberá”. |
|
|
 |