o líbano a
embaixada
serviços
consulares
visite
o líbano
líbano-brasil fale
conosco
Restaurante no centro de Beirute
Geografia
HistÓria
Economia
Governo e InstituiÇÕes
Arte e cultura
  

FENÍCIOS
Um dos maiores enigmas da antiguidade, os fenícios sempre foram celebrados como habilidosos escribas que legaram ao Ocidente o moderno alfabeto, assim como os exímios navegadores que, tendo inventado a vela nos barcos, redefiniram os limites do mundo antigo. Além disso, foram os habilidosos artesãos cujas criações foram exaltadas até mesmo pelo poeta grego Homero, ao narrar o momento em que Aquiles recebe uma tigela de prata confeccionada pelos habitantes da cidade fenícia de Sidon, nos funerais de Patroclus.

Contudo, quem eram os fenícios, de fato? Além de suas raízes semitas, sua identidade étnica se mantém um mistério. O termo moderno Fenício é de origem grega, e deriva da palavra phoinikes, cujo significado refere-se à cor vermelho-púrpura associada ao tecido de cor púrpura confeccionado por esse povo. No entanto, a forma como eles próprios se denominavam ainda é desconhecida, sendo o termo Cananita o considerado mais plausível entre os estudiosos.

A questão a respeito da identidade étnica nos faz refletir sobre outra questão bastante relevante: teriam eles uma identidade nacional que uniria as suas cidades, formando um estado fenício coeso? Tiro, Biblos, Sidon e Arvad eram cidades muradas independentes, que raramente trabalhavam conjuntamente, salvo raras exceções.  O Velho Testamento, ao se referir aos habitantes de tais cidades, não faz uma alusão à formação de tal estado. Assim, diferente dos vizinhos sírios ou palestinos, os fenícios podem ser considerados mais uma confederação de mercadores do que um país definido por limites territoriais. É possível afirmar, portanto, que o comércio marítimo, e não o território, seria o fator  de coesão capaz de defini-los.

Os fenícios podem ser considerados membros uma civilização perdida. Suas histórias, mitologias, possivelmente gravadas em papiros, desapareceram por causa da intervenção humana assim como de condições ambientais desfavoráveis para armazenamento. Assim, as fontes utilizadas na elaboração de uma história fenícia são basicamente:

a - a Bíblia, mais especificamente o Antigo Testamento;
b - os anais assírios;
c - os autores gregos e latinos, como o já citado Homero, por exemplo;
d - e as evidências arqueológicas.

O recorte temporal utilizado para a produção deste texto vai da Alta Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C., até a chegada de Alexandre, o Grande às terras fenícias, em 333 a.C.





 HISTÓRIA E SOCIEDADE
O que hoje conhecemos como cultura fenícia já ocorria 3 mil anos antes de Cristo no Levante, região litorânea hoje dividida entre Líbano, Síria e Israel. Contudo, foi apenas por volta de 1100 a.C., após um período de colapso social em toda a região, que os fenícios surgiram como uma força cultural e política significativa.

Do século IX ao VI a.C., eles dominaram o mar Mediterrâneo, fundando mercados e colônias desde a ilha de Chipre, mais a leste, até o mar Egeu, Itália, África do Norte, e Espanha, a Oeste. Conseguiram enriquecer comercializando produtos como o azeite de oliva, o vinho, e principalmente a madeira dos cedros libaneses.


1.1 - Cidades e ComÉrcio
Sob a forma de postos comerciais, cidades ou centros urbanos, os estabelecimentos fenícios compartilhavam características comuns. Salvo raras exceções, seus assentamentos eram pequenos e situados próximos a costas navegáveis, posto que, como grandes comerciantes, davam preferência a locais adjacentes a baías naturais, lagoas ou estuários.

O importante porto de Biblos, por exemplo, estava justamente localizado em uma pequena baía. Desse porto advêm as mais antigas informações a respeito dos fenícios, onde os arqueólogos encontraram evidencias de ocupação desde 5000 a.C. Foi em Biblos que, por volta de 3000 a.C., as construções de pedra tomaram o lugar das que eram anteriormente feitas com madeira, e a cidade já se encontrava completamente formada com seus muros, templos e um cuidadoso sistema de drenagem.

Biblos perdeu, contudo, sua posição de mais importante cidade fenícia após a invasão dos Povos do Mar. Tal episódio aconteceu por vota de 1200 a.C. e marca o fim da Idade de Bronze. Os povos do mar eram tribos provenientes do norte que levaram as primeiras armas de ferro à Grécia. Depois, continuaram sua marcha rumo a Fenícia e a Palestina, que por sua vez, abrigava um grupo conhecido como filisteus. Muitas foram as contribuições dos povos do mar aos fenícios, em especial a transmissão de técnicas de construção de barcos e de navegação. Um exemplo disso é o uso da quilha nas embarcações (um pesado pedaço de madeira fixado ao fundo da nau), que lhes permitiu navegar com grande precisão a despeito da direção e força dos ventos.

Cedro do Líbano. Árvore que foi muito utilizada no comércio fenício e devido ao seu uso extensivo é hoje rara
na região.

Na sucessão de Biblos, cidades mais jovens como Tiro e Sidon ganharam importância. Por volta de 1000 a.C. o rei Hiram, de Tiro, elevou a parte oriental do assentamento com a criação de um aterro artificial, transformando-a em um porto fortificado.

Em Ezequiel (Antigo Testamento, Ezequiel, capítulo 27: 8-25), (CITAR) encontramos comentários das atividades comerciais de Tiro por volta do século VII a.C. De acordo com tais relatos, Tiro mantinha relações comerciais com diferentes localidades da Anatólia, Palestina, Síria, Arábia, etc. De todos esses lugares, a cidade fenícia obtinha prata, ferro, estanho, bronze, marfim, ébano, escravos, cavalos, pérolas e linho em troca de produtos manufaturados.

Os fenícios produziam, aliás, muitos artigos luxuosos, dos quais o mais famoso era o tecido púrpura, somente usado pelas camadas mais privilegiadas da população. Tal uso restrito se deve ao complexo processo de tingimento que utilizava glândulas de milhares de moluscos chamados múrex para a produção de apenas uma peça. Dependendo da quantidade de liquido usada, e da quantidade de tempo em que o tecido era deixado ao sol, sua cor variava de um rosa suave a um forte tom de violeta.

Mapa das rotas Fenícias

1.2 - A presenÇa assÍria e as inovaÇÕes da navegaÇÃO e engenharia
Os assírios adentraram na Fenícia por volta de 877 a.C. e lá permaneceram até 612 a.C. quando o Império Assírio foi destruído pelos babilônios. No período em que ficaram sob tal controle, os fenícios tiveram seus territórios anexados ao império assírio que exigia um pagamento tributário, mas permitia, por sua vez, um governo livre do mando estrangeiro. Assim, a despeito da dominação assíria, as cidades fenícias continuaram a prosperar.
De acordo com o historiador grego Heródoto, após o declínio da presença assíria, o faraó egípcio Necho II, demandou aos navegadores fenícios uma viagem ao redor da África. A rota seguida deveria partir do Mar Morto, na direção sul em volta do Cabo da Boa Esperança para então retornar ao Mediterrâneo. A realização de um tipo de viagem como esta demonstra o alto grau de sofisticação nas técnicas de navegação fenícias, muito avançadas para a época. Também nesse período, com o auxílio de engenheiros fenícios, o mesmo faraó egípcio Necho II iniciou a construção de um canal que ligaria o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Completado após a morte do faraó, o canal continuou sendo utilizado até o século VIII d.C., quando o nível do mar baixou, fazendo com que a passagem ficasse lamacenta e impossibilitada de navegação. O atual canal de Suez, corresponde à referida obra de engenharia, e só foi reconstruído cerca de mil anos depois.


1.3 - Da dominaÇÃo persa Á chegada do exÉrcito de Alexandre, o Grande
Por volta de 539 a.C. o governante persa Cyrus II conquistou a Babilônia e a Fenícia ficou sob seu controle. Contudo, tal episódio não teve graves conseqüências às cidades fenícias, acostumadas, ao longo de muito tempo, ao domínio estrangeiro, fosse ele egípcio, assírio, babilônio ou persa. Isso se deve, como já foi afirmado anteriormente, ao fato de que a força e prosperidade dessas cidades se encontrava principalmente no domínio do mar e do comércio no Mediterrâneo.

Quando as cidades gregas da Ásia Menor se rebelaram contra o governante persa Darius I iniciou-se uma série de guerras entre persas e gregos. Isso levou as cidades fenícias a exercerem compulsoriamente um papel de apoio aos persas. Foi assim que os fenícios cederam seus navios às batalhas, perdendo grande parte de sua frota e, consequentemente, o controle do mar.

Em 352 a.C., contudo, as cidades fenícias – lideradas por Sidon – decidiram se rebelar contra o controle persa. Artaxerxes, governante persa na época, reagiu rapidamente e marchou em direção a Sidon. Grande parte da cidade foi queimada e as outras cidades foram novamente incorporadas ao império Persa. Embora preservassem sua autonomia, os fenícios jamais foram capazes de recobrar o domínio marítimo no Mediterrâneo, que já contava agora com a presença grega e cartaginense.

Em 333 a.C. os persas, sob o comando de Darius III, foram derrotados na batalha de Issus pelo grego-macedônio Alexandre, o Grande. Todas as cidades fenícias abriram suas portas ao imperador, com exceção de Tiro. Um ano depois, Alexandre ordenou a construção de uma espécie de píer ligando Tiro à costa. Ao final da construção da obra, o exército de Alexandre teve acesso aos muros da cidade, que foi completamente derrotada.

Sob o comando de Alexandre e seus sucessores, as cidades fenícias se viram incapazes de recuperar sua antiga posição comercial e política. Os gregos se alojaram em grande número no território e a língua fenícia foi desaparecendo aos poucos. O comércio, antes realizado pelos fenícios passou as mãos dos egípcios, gregos e cartaginenses. Era o início de um novo período marcado pela chegada de Roma à região.

ARTES E LINGUAGEM
No final da Idade do Bronze havia um grande amálgama de correntes artísticas na costa do Levante e suas proximidades. Daí a afirmação do historiador Donald Harden ao classificar a arte fenícia como uma arte de difícil compreensão. Em meio a influências egípcias, egéias e hititas, cabe-nos a pergunta do que pode ser denominado de fato fenício nessa mistura de estilos.

Muitas de suas obras desapareceram e as peças que sobreviveram nos dão apenas uma visão parcial da tradição artística fenícia, composta também por tecidos decorados e madeira talhada, que não resistiram à ação do tempo. Alguns achados na antiga cidade de Ugarit, são de particular relevância nesse caso. Peças em metal e marfim encontrados nesse sítio são absolutamente preciosos em qualquer estudo sobre a arte fenícia. Especificamente sobre o trabalho em marfim empreendido pelos fenícios, Donald Harden afirma:

“Do que foi encontrado, pode-se concluir claramente que o artista fenício dominava o material que trabalhava e tinha sentido de composição, de modo que era capaz de meter uma cena complicada dentro de um pequeno espaço, sem dar a sensação de a ter forçado. Também o modo como modelava as figuras é excelente dada a dureza do marfim. Se os desenhos aparentemente religiosos tinham finalidade meramente decorativa e sem objetivo religioso é uma questão a que é muito difícil responder. Isso aplica-se não somente aos marfins mas também a outra arte fenícia, incluindo tigelas de metal gravado ou repuxado.” (HARDEN, 1971, pp 190)

Quanto à linguagem e à escrita, é notória a contribuição fenícia na difusão do alfabeto. Eles foram os primeiros a compreender sua utilidade, já que se tratava de um processo de escrita cômodo e simples, que facilitava tanto as suas operações comerciais quanto a propagação do pensamento.

Sabe-se que o alfabeto fenício foi baseado no alfabeto semita, e a partir dele originou-se o alfabeto grego, bem como os alfabetos aramaico, hebraico e arábico. O alfabeto fenício não tem símbolos para representar sons de vogais; cada símbolo representa uma consoante. As vogais precisavam ser deduzidas no contexto da palavra.

O momento e o lugar da aparição do alfabeto tal como o conhecemos, ou seja, sob a forma de um sistema que permitia a transcrição mais rápida e mais fácil da linguagem oral, é ainda uma questão não resolvida. As teorias mais prováveis de sua criação datam da primeira metade do segundo milênio a.C. nas cidades de Ugarit, Tiro e Biblos.

Com suas 21 consoantes, o alfabeto fenício está bem documentado nos monumentos de Byblos, como o sarcófago de Ahiram. Já nessa época, a forma das letras estava fixa, assim como a posição horizontal da escrita. De acordo com evidências arqueológicas o alfabeto fenício se espalhou rapidamente além de suas fronteiras. Por volta do século IX a.C. ele havia sido adotado por uma variedade de linguas vizinhas, incluindo o Aramaico, Hebreu, Amonita, entre outras.

A expansão fenícia no Mediterrâneo levou à exportação do alfabeto, primeiramente para Ciprus e Creta em 900 a.C. e um século depois para o Mediterraneo Ocidental, na Sardenha e no sul da Espanha. Contudo, seu impacto foi mais proeminente na cultura egéia, na medida em que os fenícios foram os responsáveis pela introdução e a adoção do alfabeto grego, um fato confirmado pelo tamanho, forma e ordem das letras os primeiros escritos gregos.

Em posessão de um alfabeto, os fenícios escreveram numerosas obras que, infelizmente, não chegaram até nós. Devemos, no entanto, mencionar aqui um dos poucos autores fenícios conhecidos hoje: Sakkunyaton, cuja obra, que trata de uma história fenícia, e foi traduzida para o grego por Filón de Biblos, no século I d.C.

Quadro comparativo demonstrando a evolução do alfabeto fenício




RELIGIÃO
Segundo o Antigo Testamento, quando (por volta de 966 a.C.) Salomão, filho do rei Davi, ocupou o trono hebreu, havia uma intenção de construir um templo em Jerusalém. Como não possuia homens e material, Salomão demandou a ajuda de Hiram, rei de Tiro na época, que lhe forneceu arquitetos e madeira de cedro para a construção do templo em troca de trigo, azeite e outros produtos agrícolas.

Detalhe do sarcófago de Echmunazaar de Sidon (século VI a.C.)

O templo de Salomão foi desenhado de acordo com parametros fenícios e pode-se conjecturar que sua descrição bíblica nos seria capaz de fornecer uma idéia dos templos fenícios.

No que se refere mais especificamente à religião fenícia, existem três deuses principais designados, por vezes, com nomes diferentes. El (chamado de Baal em Sidon) era a deus máximo do panteão fenício. Ele representava um deus-sol e muitas vezes aparecia sob a forma de um touro. Sua esposa era chamada Astarte (Baalat em Biblos), uma deusa-mãe habitante dos mares. E seu filho era chamado de Baal (Adonis, em Biblos), o deus das tempestades e montanhas.

A despeito da importância de El, Baal era o deus mais cultuado entre os fenícios. Sua adoração era também popular nas colonias fenícias, especialmente em Cártago. Acreditava-se que quando a neve das montanhas libanesas derretia e fazia com que a água dos rios ficasse mais limpa, era Baal que estava renascendo para dar lugar a grandes celebrações anuais entre os fenícios.



*Conteúdo gentilmente cedido pela equipe Familyd.net .